Uma mulher mal amada é capaz de tudo, até mesmo de escrever um livro
Estou em casa numa madrugada de sábado procurando por algum tipo de putaria na tv. Não encontro nada além daqueles filminhos meia boca da band onde enquanto a mulher está de quatro é possível ver entre as pernas dela o pau mole do ator balançando. Vou pra cozinha, abro uma fanta uva e coloco uns bolinhos de bacalhau pra fritar. Toca o telefone, coisa difícil durante a madrugada:
-Alô?
-Caralho mano, quanto tempo...
-Quem é?
-Sou eu, porra...
-Eu quem, porra?
-O Ronaldo.
-Ah, tá. E aí mano, firmeza?
-Firmão. Mano, quero um favor seu. Rola tu resenhar um livro pra mim?
-Não, ando ocupado e cheio de coisas pra fazer ultimamente.
-Vai moleque, rola uma grana se for publicado.
-Rola? Mais do que aquela matéria sobre gonzo jornalismo?
-Rola, mais do que aquela merda.
-Beleza, então eu faço. Qualé o livro?
-É um da Conrad...
-Xiii, lá vem merda...
-Cala-te a boca, moleque. Você ainda é um mero estudantezinho de jornalismo e eu já sou mestrando em Ciências Sociais na PUC/SP. Faz assim, ó, vem almoçar amanhã aqui em casa que eu te entrego o livro. Tu vai ter que resenhar em 2 dias.
- Tudo bem, não faço nada da meia noite as seis da manhã mesmo. Você já viu esses filmes de sacanagem da band? É uma ofensa pra nós, consumidores.
-Tá bom moleque. Estou te esperando pro almoço, até amanhã.
O almoço foi a maior furada, era de família e o Ronaldo não tem nenhuma priminha gostosa do interior pra eu passar a rola. Pelo menos comi pra caralho, bebi cerveja, dei meu showzinho, fiz minha punhetagem sobre Hakim Bey e seu anarquismo ontológico (apesar de ninguém ter se interessado) e peguei o livro pra resenhar:
Scum Manifesto, uma proposta para a destruição do sexo masculino. Com um nome destes, só podia ser da Conrad mesmo. Entro no busão sentindo a brisa das cervejas que tomei e fico olhando as coxas duma morena gostosa de saia na minha frente. Chego em casa, abro o livro numa página qualquer e leio um parágrafo a esmo:
"Completamente egocêntrico, incapaz de se relacionar, de ter empatia ou de se identificar, e com uma sexualidade vasta, penetrante e difusa, o macho é fisicamente passivo. Por odiar essa passividade, ele a projeta nas mulheres, define-se como ativo e então parte para provar essa condição. Trepar é seu principal artifício para provar que é o ativo na relação (o grande homem com um Grande Pinto tirando a roupa de um Grande Avião). Uma vez que ele está tentando legitimar um equívoco, precisa 'comprová-lo' interminavelmente. Assim, trepar é uma tentativa desesperada, compulsiva, de provar que ele não é passivo, que não é mulher. No entanto, ele é passivo e na verdade quer ser mulher".Interessante, né? Quem será a autora de tal pérola? Valerie Solanas, que mendigou nas ruas de Nova York, foi aluna brilhante na Universidade, foi prostituta (hummm...), escreveu uma peça de teatro. Era lésbica (hummm...), foi atriz em filmes (pornô?), foi junkie e deu um tiro quase fatal em Andy Warhol. Rolou uma vontade de bater uma bronha, deixa eu ver a foto da autora... hum, nem rola, feinha demais. Estou começando a entender o desapontamento dela pelos homens. Bato uma pensando nas coxas da morena do ônibus.
Depois de tirar um cochilo pego uma cerva, sento no sofá, abro a camisa para que minha barriga proeminente tome um ar e passo a mão no livro. A preguiça é grande e o desanimo maior ainda. Para ver se o livro é aturável abro novamente numa página qualquer:
"Sendo totalmente autocentrado e incapaz de se relacionar com qualquer coisa além de si mesmo, a 'conversa' do macho, quando não gira em torno dele mesmo, é uma lengalenga impessoal, sem nenhum conteúdo de valor humano. A 'conversa intelectual' do macho é uma tentativa forçada, compulsiva, de impressionar a fêmea".Dou uma coçada no saco e encaro a baranga, vamos lá.
Scum numa tradução tosca significa escória, mas a autora a usa como sigla de Society of Cuttin Up Men (Sociedade para Fazer Picadinho dos Homens). Sabe, sempre fui chegado numa mina assim, mais agressiva, que goste de arranhar e etc e tal. To começando a gostar dessa mina aí, essa tal de Solanas.
O livro, basicamente, tenta mostrar que os homens são uns pedaços de merda, umas fêmeas incompletas, uns abortos ambulantes e que no fundo todos queríamos ser fêmeas, mas não consegue. Enfim. Algumas idéias até que poderiam ser interessantes, relevantes e até mesmo contestadoras, mas da forma que é colocada é apenas risível e patética. Poderia chamar a atenção para algumas idéias, surgir algum debate (apesar da autora demonstrar que com ela não tem papo, ela é fêmea dominadora, segura, desagradável, violenta, egoísta, orgulhosa e bla bla bla), mas o que pouco presta é ofuscado por muita merda e baboseira. É uma pena ver tantas árvores derrubadas em vão. Convenhamos, dá pra levar a sério um livro que diz que
"o sexo não faz parte de um relacionamento. Pelo contrario, é uma experiência solitária, não criativa, uma grande perda de tempo. O sexo é o refúgio dos tolos."? Não, não dá.
Agora eu to sacando qualé a da mina. A princípio achei que fosse um livro de auto-ajuda pra mulheres com dor de corno, agora percebo que não passa de um livrinho de humor, bem vagabundo, mas humor. A cerveja acaba e eu imagino como seria bom ter uma mulher pra ir buscar outra latinha pra mim, sem contar na pilha de pratos na cozinha pra lavar.
Volto da cozinha pra terminar o curto livro. Além de todo o bla bla bla o livro também invoca as mulheres para a ação:
"Outras medidas seriam: as mulheres se declararem fora do sistema monetário, pararem de comprar e começarem a saquear ou simplesmente se recusarem a obedecer a todas as leis que não acham importantes. A força policial, a Guarda Nacional, o Exercito e a Marinha de Guerra juntos não poderiam dominar uma rebelião de mais da metade da população, sobretudo quando é feito por pessoas sem as quais eles não conseguem sobreviver".
Me veio à cabeça, nem sei porque, uma musica muito tocada nos anos 80 que o refrão diz:
"Toquem o meu coração, façam a revolução". Bons tempos aqueles e grande comedor, o Paulo Ricardo.
A ultima parte do livro é sobre a vida da autora, um pouco mais interessante que o próprio livro. O que realmente importa é que ela morreu em 88. Tava preocupado, achando que meu culhão fosse passar na lamina da faca. Mostra também o que eu já sabia, é um livro de humor.
"Não há nenhuma organização chamada Scum", afirma Solanas numa entrevista.
"Ele é 'hipotético'. Não, ‘hipotético’ é uma palavra errada. É apenas um recurso literário". Eu sempre soube.
O livro finalmente termina (ufa!) com um depoimento da mamãe de Solanas, Dona Dorothy Moran, para o repórter Rowan Gaither, quando este perguntou sobre os últimos anos de vida da filha:
"Ela estava escrevendo. Achava que era escritora, e me parece que tinha algum talento. Durante anos ela viveu com um homem. [...] Valerie tinha um incrível senso de humor". É, dá pra perceber.
Fecho o livro que servirá para presentear alguma amiguinha mais engajada contra depilação. É começo de madrugada. Ligo a tv e zapeio o controle remoto atrás de putaria. Nada de útil, absurdo. Levanto. Vou pra cozinha e coloco umas batatas pra fritar e penso em como seria bom ter uma mulher pra fritá-las pra mim...