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Do Fundo da Gaveta

Histórias fictícias sobre pessoas incomuns

quarta-feira, maio 17

Atores em busca...

E nesse domingo, na Virada Cultural, vai rolar leitura dramática de uma das minhas peças lá no Casarão do Belvedere. Em dezembro do ano passado já rolou a leitura de “Dois Seqüestros” na mostra do SuperNova Coletivo de Dramaturgos, grupo do qual eu fiz parte até janeiro deste ano. Nessa leitura que já rolou, eu fiz a direção da parada. Contei com a ajuda de dois amigos talentosíssimos que leram meu texto – Paulinho Vasconcelos e Júlio Castro. Dessa vez quem vai dirigir é meu brother Julio Carrara e no elenco também estão bons amigos (que são também bons atores), além de mim e da minha namorada.

A peça se chama “Atores em busca do texto perfeito” e foi escrito durante duas madrugadas. A primeira parte do texto foi escrito numa madrugada em meados de 2005. A segunda parte foi escrita em fevereiro desse ano, quando me bateu uma insônia e eu resolvi reler a metade que eu já tinha escrito. E duas ou três horas depois ele já estava pronto. Aí foi só ajustar algumas coisas posteriormente.

No fundo eu não botava muita fé nesse texto meu. É uma comédia que beira o besteirol, onde sobra deboches pra muita gente que freqüenta a revista Caras e novelas da Globo. Sobra pra estudantes de teatro que freqüentam cursos mágicos que dizem transformar pessoas em atores, estudantes estes que freqüentam cursos de diretores de novela e acham que em breve estarão brilhando ao lado da Carolina Dieckmann e freqüentando o programa do Faustão. Sobra para críticos como Dona Bárbara Heliodora, para apresentadores de tevê e nomes intocáveis do teatro. Mas não é nada pessoal, eu sequer os conheço. São apenas deboches que cabiam na boca dos personagens. De alguns eu até gosto e respeito. O fato é que a gente perde o amigo, mas não perde a piada.

O meu receio era de que apenas eu me divertiria com esse texto, algo como um antro de piadas internas, tão internas que apenas eu poderia rir delas. Assim como um cara que não sabe contar piadas, quando as conta, apenas ele se diverte, mas quem tá ouvindo não tá nem aí, não acha nada demais. Eu fiquei mais tranqüilo quando o Julio leu a peça e também achou divertida pra caralho. Eu me tranqüilizei ainda mais quando o elenco leu e riu pra caralho durante todo ensaio. Entendi que as piadas não eram tão internas assim. Ficou claro que seria muito divertido fazer essa leitura e uma futura montagem dessa peça, que é algo que já está sendo pensado. E se nós estamos nos divertindo fazendo, estamos no caminho certo. No final de tudo é isso que importa. Porque uns vão gostar e outros não. Então tá tudo bem.

Se você quiser correr o risco de se divertir com a gente, aparece lá pra assistir a leitura. Porque pra nós, que vamos ler, vai se ducaralho. Abaixo as informações sobre o espetáculo.

Atores em busca do texto perfeito
de Thiago Duran Nogueira
direção de Julio Carrara

Daniel, Nelson, Túlio, Tatiana e Luna formam um grupo de teatro que se inscreveram num festival, mas ainda não sabem que texto montar. Algumas opções surgem, mas eles consideram todas ruins. As coisas ainda pioram quando Maria, uma atriz que Daniel conheceu anteriormente, entra para o grupo.

Elenco: Will Prado, Thiago Duran Nogueira, Vanessa Alvim, Julio Carrara, Lu Ferreira e Samya Enes.
Local: Casarão do Belvedere
Região: Centro
Endereço: Rua Pedroso, 267
Bairro: Bela Vista
Datas e Horários: 21/05/2006(Domingo) às 12:00 e às 15:00
Valor do Ingresso: Gratuito

sábado, março 25

Em Maio

Inspirada em fragmentos da literatura erótica francesa (exceto Marquês de Sade), "Adega dos Anjos" é o 35º espetáculo teatral da Companhia das Artes Dramáticas (CAD).

Com texto e direção de Julio Carrara, a montagem levará ao palco o incesto, o poder e o fanatismo religioso.

Atuam no espetáculo os atores: Eduardo Metring, Fabrício Dener, Geovane Fermac, José Trassi, Lu Ferreira, Marcos De Vuono, Samya Enes e Thiago Duran Nogueira.

O espetáculo estréia na primeira quinzena de maio.

segunda-feira, janeiro 2

Estréia

Um Refrão para Desconhecidos e Íntimos
de João Fábio Cabral

Edgar é um escritor nada modesto, acostumado à boemia, que se acha o Deus da literatura, que grita aos quatro ventos como é fantástica a sua escrita. Ele acabou de ser abandonado por sua namorada e vive um momento de grande desilusão. Edgar é o melhor amigo de Gil, um reconhecido chefe de cozinha, sem papas na língua, bem sucedido, solitário, homossexual assumido que tem fixação por homens casados. Numa de suas farras, Edgar acaba conhecendo as irmãs Alice e Cristina e vive um triângulo amoroso. Alice é uma gerente de banco dedicada ao trabalho, casada, que não admite de forma alguma quebrar regras, que esconde desejos e medos. Sustenta Cristina, uma atriz em início de carreira, frustrada por não ter o sucesso que ela acha que merece e que culpa a irmã pelo seu fracasso, acusando-a pela infelicidade das duas desde o casamento de Alice. Sílvio é um corretor de imóveis, um cara casado que tem horror que descubram a sua verdadeira condição sexual. É um cara que vive inventando nomes diferentes e se escondendo. Entre várias de suas transas, Sílvio acaba conhecendo Gil e de quebra, Edgar. Num mundo de coincidências todos se cruzam, todos se relacionam, mesmo sem saber quem é quem, e de onde e quando apareceram na vida de cada um. Internet, desejos, sexo, tudo discorre no mundo das personagens. Entre medos e prazeres, o tempo passa e com ele se fecha o círculo, as relações se aprofundam, se deterioram, se concretizam, fazendo nascer coisas novas, futuros prósperos, amores novamente perdidos e trazendo, com tudo isso, um final que não existe. Um Refrão para Desconhecidos e Íntimos não é um julgamento. É uma realidade presente em qualquer cidade do mundo. Personagens que circulam pelas ruas de São Paulo. Histórias que se cruzam pelo inevitável destino, despertando uma luta obscena de sobrevivência.

Direção: Rogério Harmitt

Assistência de Direção: Thiago Duran Nogueira

Elenco: Marcelo Galdino Marisa Lobo Nivio Diegues Patrícia Winceski Paulo Vasconcelos

Músico: Fabio Brum

Figurinos: Veridiana Toledo

Iluminação: Marcos Loureiro

Serviço:

Centro Cultural São Paulo

Sala Jardel Filho

De 06/01/06 à 12/02/06

Sextas e sábados às 21 h e Domingos às 20 h

Ingressos: R$12,00

Desaconselhável para menores de 16 anos.

Matéiria sobre a peça no site Mix Brasil

sábado, dezembro 17

Revolta vinda do útero

Uma mulher mal amada é capaz de tudo, até mesmo de escrever um livro

Estou em casa numa madrugada de sábado procurando por algum tipo de putaria na tv. Não encontro nada além daqueles filminhos meia boca da band onde enquanto a mulher está de quatro é possível ver entre as pernas dela o pau mole do ator balançando. Vou pra cozinha, abro uma fanta uva e coloco uns bolinhos de bacalhau pra fritar. Toca o telefone, coisa difícil durante a madrugada:
-Alô?
-Caralho mano, quanto tempo...
-Quem é?
-Sou eu, porra...
-Eu quem, porra?
-O Ronaldo.
-Ah, tá. E aí mano, firmeza?
-Firmão. Mano, quero um favor seu. Rola tu resenhar um livro pra mim?
-Não, ando ocupado e cheio de coisas pra fazer ultimamente.
-Vai moleque, rola uma grana se for publicado.
-Rola? Mais do que aquela matéria sobre gonzo jornalismo?
-Rola, mais do que aquela merda.
-Beleza, então eu faço. Qualé o livro?
-É um da Conrad...
-Xiii, lá vem merda...
-Cala-te a boca, moleque. Você ainda é um mero estudantezinho de jornalismo e eu já sou mestrando em Ciências Sociais na PUC/SP. Faz assim, ó, vem almoçar amanhã aqui em casa que eu te entrego o livro. Tu vai ter que resenhar em 2 dias.
- Tudo bem, não faço nada da meia noite as seis da manhã mesmo. Você já viu esses filmes de sacanagem da band? É uma ofensa pra nós, consumidores.
-Tá bom moleque. Estou te esperando pro almoço, até amanhã.

O almoço foi a maior furada, era de família e o Ronaldo não tem nenhuma priminha gostosa do interior pra eu passar a rola. Pelo menos comi pra caralho, bebi cerveja, dei meu showzinho, fiz minha punhetagem sobre Hakim Bey e seu anarquismo ontológico (apesar de ninguém ter se interessado) e peguei o livro pra resenhar: Scum Manifesto, uma proposta para a destruição do sexo masculino. Com um nome destes, só podia ser da Conrad mesmo. Entro no busão sentindo a brisa das cervejas que tomei e fico olhando as coxas duma morena gostosa de saia na minha frente. Chego em casa, abro o livro numa página qualquer e leio um parágrafo a esmo:

"Completamente egocêntrico, incapaz de se relacionar, de ter empatia ou de se identificar, e com uma sexualidade vasta, penetrante e difusa, o macho é fisicamente passivo. Por odiar essa passividade, ele a projeta nas mulheres, define-se como ativo e então parte para provar essa condição. Trepar é seu principal artifício para provar que é o ativo na relação (o grande homem com um Grande Pinto tirando a roupa de um Grande Avião). Uma vez que ele está tentando legitimar um equívoco, precisa 'comprová-lo' interminavelmente. Assim, trepar é uma tentativa desesperada, compulsiva, de provar que ele não é passivo, que não é mulher. No entanto, ele é passivo e na verdade quer ser mulher".

Interessante, né? Quem será a autora de tal pérola? Valerie Solanas, que mendigou nas ruas de Nova York, foi aluna brilhante na Universidade, foi prostituta (hummm...), escreveu uma peça de teatro. Era lésbica (hummm...), foi atriz em filmes (pornô?), foi junkie e deu um tiro quase fatal em Andy Warhol. Rolou uma vontade de bater uma bronha, deixa eu ver a foto da autora... hum, nem rola, feinha demais. Estou começando a entender o desapontamento dela pelos homens. Bato uma pensando nas coxas da morena do ônibus.

Depois de tirar um cochilo pego uma cerva, sento no sofá, abro a camisa para que minha barriga proeminente tome um ar e passo a mão no livro. A preguiça é grande e o desanimo maior ainda. Para ver se o livro é aturável abro novamente numa página qualquer:

"Sendo totalmente autocentrado e incapaz de se relacionar com qualquer coisa além de si mesmo, a 'conversa' do macho, quando não gira em torno dele mesmo, é uma lengalenga impessoal, sem nenhum conteúdo de valor humano. A 'conversa intelectual' do macho é uma tentativa forçada, compulsiva, de impressionar a fêmea".

Dou uma coçada no saco e encaro a baranga, vamos lá.

Scum numa tradução tosca significa escória, mas a autora a usa como sigla de Society of Cuttin Up Men (Sociedade para Fazer Picadinho dos Homens). Sabe, sempre fui chegado numa mina assim, mais agressiva, que goste de arranhar e etc e tal. To começando a gostar dessa mina aí, essa tal de Solanas.

O livro, basicamente, tenta mostrar que os homens são uns pedaços de merda, umas fêmeas incompletas, uns abortos ambulantes e que no fundo todos queríamos ser fêmeas, mas não consegue. Enfim. Algumas idéias até que poderiam ser interessantes, relevantes e até mesmo contestadoras, mas da forma que é colocada é apenas risível e patética. Poderia chamar a atenção para algumas idéias, surgir algum debate (apesar da autora demonstrar que com ela não tem papo, ela é fêmea dominadora, segura, desagradável, violenta, egoísta, orgulhosa e bla bla bla), mas o que pouco presta é ofuscado por muita merda e baboseira. É uma pena ver tantas árvores derrubadas em vão. Convenhamos, dá pra levar a sério um livro que diz que "o sexo não faz parte de um relacionamento. Pelo contrario, é uma experiência solitária, não criativa, uma grande perda de tempo. O sexo é o refúgio dos tolos."? Não, não dá.

Agora eu to sacando qualé a da mina. A princípio achei que fosse um livro de auto-ajuda pra mulheres com dor de corno, agora percebo que não passa de um livrinho de humor, bem vagabundo, mas humor. A cerveja acaba e eu imagino como seria bom ter uma mulher pra ir buscar outra latinha pra mim, sem contar na pilha de pratos na cozinha pra lavar.

Volto da cozinha pra terminar o curto livro. Além de todo o bla bla bla o livro também invoca as mulheres para a ação:

"Outras medidas seriam: as mulheres se declararem fora do sistema monetário, pararem de comprar e começarem a saquear ou simplesmente se recusarem a obedecer a todas as leis que não acham importantes. A força policial, a Guarda Nacional, o Exercito e a Marinha de Guerra juntos não poderiam dominar uma rebelião de mais da metade da população, sobretudo quando é feito por pessoas sem as quais eles não conseguem sobreviver".

Me veio à cabeça, nem sei porque, uma musica muito tocada nos anos 80 que o refrão diz: "Toquem o meu coração, façam a revolução". Bons tempos aqueles e grande comedor, o Paulo Ricardo.

A ultima parte do livro é sobre a vida da autora, um pouco mais interessante que o próprio livro. O que realmente importa é que ela morreu em 88. Tava preocupado, achando que meu culhão fosse passar na lamina da faca. Mostra também o que eu já sabia, é um livro de humor. "Não há nenhuma organização chamada Scum", afirma Solanas numa entrevista. "Ele é 'hipotético'. Não, ‘hipotético’ é uma palavra errada. É apenas um recurso literário". Eu sempre soube.

O livro finalmente termina (ufa!) com um depoimento da mamãe de Solanas, Dona Dorothy Moran, para o repórter Rowan Gaither, quando este perguntou sobre os últimos anos de vida da filha: "Ela estava escrevendo. Achava que era escritora, e me parece que tinha algum talento. Durante anos ela viveu com um homem. [...] Valerie tinha um incrível senso de humor". É, dá pra perceber.

Fecho o livro que servirá para presentear alguma amiguinha mais engajada contra depilação. É começo de madrugada. Ligo a tv e zapeio o controle remoto atrás de putaria. Nada de útil, absurdo. Levanto. Vou pra cozinha e coloco umas batatas pra fritar e penso em como seria bom ter uma mulher pra fritá-las pra mim...

quinta-feira, novembro 17

1ª Mostra de Leituras Dramáticas Coletivo SuperNova de Dramaturgos


Acontecerá no mês de Dezembro, dias 10 e 11, a Primeira Mostra de Leituras Dramáticas do Coletivo SuperNova de Dramaturgos. No primeiro dia (10/12/2005) às 18:00 horas será apresentada a leitura de “Rave” de Ricardo Avarih. No segundo dia (11/12/2005) serão duas leituras, a primeira começando às 17:00 horas será “Seqüestro“ de Thiago Duran Nogueira e às 19:30 horas “A Linha Imaginária” de Johnny Kagyn. O evento será realizado no BRIVA Espaço Cultural, localizado no Ipiranga. A entrada é franca e após as leituras haverá debate com os dramaturgos.

Segue abaixo o release das peças:

Dia 10 de dezembro às 18:00hs
“Rave!” de Ricardo Avarih.
Direção de Ricardo Avarih
“Rave!” é uma festa. Aquelas festas onde tudo acontece ao nosso redor e não sabemos exatamente qual será o fato que mais nos chamará a atenção. Uma festa daquelas que os tolos lutam para tomar uma igual para si e os infelizes são compelidos a enfrentar a solidão.

Dia 11 de dezembro às 17:00hs
“Dois Seqüestros” de Thiago Duran Nogueira.
Direção de Thiago Duran Nogueira
“Dois Seqüestros" é um acerto de contas entre dois personagens: um advogado e um seqüestrador. O primeiro encarcerado pelo segundo, mas ambos vítimas um do outro. Diálogos ágeis, violentos e sarcásticos para repensar quem é vítima e quem é culpado. Ou ainda: existem vítimas e/ou culpados?

Dia 11 de dezembro às 19:30hs
“A linha imaginária” de Johnny Kagyn.
Direção de Alissandra Rocha
“A linha imaginária” é uma fabula sobre a trágica mediocridade humana. Utilizando de uma linguagem simples, ágil e irônica o dramaturgo cria um ambiente de sufocante irrealidade que ao mesmo tempo se aproxima do cotidiano, onde ídolos nascem a todo tempo nas capas de revistas, vídeo-clipes e reality-shows.

SERVIÇO:
1ª Mostra de Leituras Dramáticas Coletivo SuperNova de Dramaturgos
Dias 10 e 11 de Dezembro
BRIVA Espaço Cultural: Rua Imbuial, 61 Ipiranga.
Tel.: 6168-9899
E-mail: coletivo.supernova@gmail.com
Site: http://supernovadramaturgos.blogspot.com

quarta-feira, outubro 26

A Desconhecida

(Certa vez me ligaram e me encomendaram um conto erótico. Era pra fazer parte de uma matéria sobre Literatura Erótica. O conto foi escrito, mas não chegou a ser publicado por ser considerado PORNOGRÁFICO. Segue abaixo.)


Clarissa tinha o que sempre desejou e buscou em seus relacionamentos: Estabilidade. Depois de muitos anos de fracassos amorosos, ela estava com Luís há três anos e isso, pelo menos para ela, não causava problemas.

Mas para Luís parecia causar.

Luís reclamou para alguns amigos que o sexo com Clarissa já não era mais o mesmo. Não existia mais aquele tesão de começo de relacionamento, aquela vontade. “Até mesmo as posições não variavam mais e o tempo de sexo era maior”, disse ele.

Clarissa já vinha notando um distanciamento por parte dele. Um dia achou uma revista masculina nas coisas do namorado. Na revista tinha uma longa reportagem sobre o quê a mulher pode fazer para manter o sexo sempre quente. Foi graças a essa leitura que Clarissa teve uma louca idéia.

Foi num fim de domingo que Clarissa optou por surpreender seu namorado. Ela alugou um filme e os dois foram assistir na cama. Lá para meio do filme, Clarissa olhou as horas, desligou a televisão e passou a beijar o namorado insaciavelmente. Alguns segundos depois ela já percebia a excitação dele. O pau estava duro, quase estourando. Acariciou por cima da calça o membro rijo e desejou chupá-lo. Mas não era isso que havia programado. De dentro da gaveta do criado-mudo, ela retirou duas algemas e uma venda para os olhos. Luís parecia gostar. Deixou ser algemado e vendado por ela. Nisso a campainha soou. Ele nem teve tempo de resmungar. Antes mesmo de abrir a boca Clarissa disse: “Amor, faz parte da surpresa”.

Depois de poucos instantes, passos invadiram o quarto. Clarissa se aproximou do namorado e falou sussurrado em seu ouvido: “Amor, ela é uma amiga e vai trepar com você. Eu vou ficar só olhando”. Ele já sentia as carícias em seu pau de outras mãos, outras mãos que não eram as mãos de Clarissa. Ele não podia, não conseguia falar nada.

Ele ouviu uma cadeira se arrastar. Clarissa sentou-se e falou para ele aproveitar. A garota acariciava seu pau e logo o colocou para fora e começou a chupá-lo. Chupava, lambia e masturbava o pau já úmido de saliva. Dele, de Luís, só poucos gemidos eram escutados.

A garota misteriosa não dizia nada. Luís pensou se tratar de uma profissional. Ela o chupou por alguns bons minutos e parou. Continuou um pouco mais com a mão, batendo uma deliciosa punheta para ele. Quando ela parou, ele sentiu que o corpo dela estava por cima do seu. A imaginou de quatro, com os peitos quase roçando seu corpo. A garota coloca um dos peitos na boca de Luís. Ele chupa, mama e lambe como se fosse o primeiro e último peito de sua vida. Ela troca o peito, dá o outro para ele chupar. A garota coloca o rosto de Luís entre seus peitos – são peitos grandes, ele consegue perceber.

As mãos de Luís continuam algemadas à cama e ele pede para soltá-las. Toma um forte tapa na cara e, surpreso, gosta. Sente a boceta úmida da garota roçar sua boca. Ele abre e engole o sexo peludo da desconhecida. Chupa o grelo. Sente o cheiro. Passa a língua onde pode alcançar. Morde-lhe as coxas, lambe sua virilha e volta a chupar sua boceta. Ela tira a boceta de sua boca, vira-se sentido contrário e coloca novamente a boceta na boca de Luís. Só que agora com o cu logo acima, todo aberto, pedindo para ser lambido. Ela passa a chupar novamente seu pau. Ele passa, então, a lamber o cu daquela desconhecida.

Ela desvencilha seu corpo do dele. Ele sente a boceta úmida da garota deslizar seu pau para dentro daquela gruta. Colocou devagar. Uma, duas, três vezes. Ele sussurrava de tesão. Podia sentir a excitação da garota mesmo com todo o silencio dela. A boceta molhada não podia negar. Ela começou a cavalgar no mastro dele. E cavalgava gostoso. Sentia a força que a garota fazia e se sentia um felizardo por estar ali, algemado e sem precisar fazer esforço algum para fodê-la. Apenas sentia a violência deslizada e gostava. Bastaria um pouco mais e gozaria.

A garota parecia ler seus pensamentos e saiu de cima dele. Ela o masturbou devagar e colocou o pau para dentro do cu, que ofereceu alguma resistência. Não custou muito e o pau deslizou para dentro. A penetração anal era apertada. Mas aos poucos a garota começou a ir e vir com maestria. Ele não desejava mais nada da vida quando sentiu uma outra boceta encostar-se a sua boca. Percebeu ser a boceta de sua namorada. E chupou ao mesmo tempo em que comia o cu de uma desconhecida.

Luís perdeu a noção de quanto tempo permaneceu nesse ato. Não queria mais nada. O tempo parecia estacionado e, realmente, era isso que ele queria que acontecesse. Começou a ouvir os sussurros de Clarissa que logo gozou em sua boca. Gozou orgasmos múltiplos. E ele engoliu. Era delicioso. Há quanto tempo Clarissa não gozava em sua boca.

Ele sentiu que logo iria gozar e avisou. A garota saiu, pegou seu pau e começou a chupá-lo. Ele, não agüentando mais de tesão, inundou a boca daquela garota, que ele não sabia quem era. E, sinceramente, naquele momento, nem queria saber. Ela continuou acariciando seu pau mais um pouco enquanto passava a língua em sua glande. Sugou o restinho de porra e engoliu. Luís respirava ofegante. Estava satisfeito. Realizado.

Percebeu que a garota saiu da cama e foi se vestir na sala. Ele continuava algemado à cama. Ouviu a porta abrir e a garota sair. Nem a voz dela ouvira. Logo em seguida sentiu a aproximação de sua namorada na cama e o carinho em seu peito. Que presente ela lhe dera. Ela o soltou e tirou a venda de seus olhos. Ele a beijou e agradeceu. Ela falou: “Você merece. Ela é só uma amiga, e você a conhece”.

Hoje, para todas as amigas de Clarissa que Luís olha, ele imagina qual, de fato, foi aquela safada que ele comeu e que gozou em sua boca.

terça-feira, outubro 18

Na Cult


Já está nas bancas a Revista Cult deste mês, edição 96. Nela pode-se ler uma entrevista com o dramaturgo/ diretor/ ator/escritor Mário Bortolotto. Entrevista feita por mim e pelo Filipe Marcel. A entrevista foi mexida por algum editor (principalmente o texto de apresentação), mas no geral tá legal.

Mário Bortolotto, para quem não sabe, é fundador do grupo Cemitério de Automóveis. Tem uma obra extensa (mais de 50 peças escritas) e um estilo inconfundível de dramaturgia. É, também, autor de 2 romances, um livro de poesias e outro de textos jornalísticos. Está em cartaz atualmente no Espaço dos Satyros dois com a peça “Homens, Santos e Desertores”. Também escreve diariamente em seu blog Atire no Dramaturgo.

Foto: Mário Bortolotto e Fernanda D´Umbra em cena de "Nossa Vida não vale um Chevrolet"

sexta-feira, outubro 7

Convite Fúnebre

Meu assassínio já está sendo devidamente preparado. Não vai doer e terá bastante emoção. Vai valer a pena. Vou ter alguns segundos para os últimos pensamentos. Isso é importante, muito importante.

A comemoração do sucesso do mesmo será feita com bastante fogos, cachorrinhos atravessando círculos em chamas, palhaços malabaristas e cuspidores de fogo.

Por favor, compareçam.

sexta-feira, setembro 30

Ai de ti, leitor!

Em seu livro mais recente, José Arbex Jr. apresenta de forma contundente as formas em que a grande mídia está diretamente comprometida com os interesses da classe dominante. O Jornalismo Canalha, lançado pela editora Casa Amarela, apresenta uma visão ainda mais radical/parcial de seu autor, que já trabalhou para alguns dos veículos que neste livro são metralhados.

José Arbex Jr. é atualmente editor especial da revista Caros Amigos, editor-chefe do jornal Brasil de Fato e editor-geral do boletim Mundo – geografia e política internacional. Já foi correspondente da Folha de São Paulo, cobrindo eventos importantes como, por exemplo, a guerra civil da Nicarágua(1986) e a Guerra do Golfo(1991). Consta também em seu currículo entrevista exclusivas, dentre elas com Mikhail Gorbatchov, Yasser Arafat, Noam Chomsky, Florestan Fernandes, Celso Furtado e outros chefes de Estado, ativistas, militantes e intelectuais.

No livro, tem-se um tipo de jornalismo combatente, praticamente um manifesto contra o jornalismo conduzido nos principais jornais e grande imprensa em geral. Combate este praticado por dissidentes dos grupos contra a ditadura militar que ainda hoje vêem com olhos rebeldes ranços ditatoriais e fascistas na grande mídia.

São vítimas da crítica de Arbex a mídia internacional e conseqüentemente a brasileira, por apenas reproduzir visões poluídas de preconceitos dos jornalistas a serviço da Casa Branca. O governo estadunidense, como principal alvo, chega a ser responsabilizado por atentados terroristas da mesma dimensão, ou ainda maior, que o de 11 de Setembro. Imagem errônea, pois comparar o momento de uma guerra, como a que foi cenário no ataque de Hiroshima, com o de um ataque terrorista imprevisível não é uma forma ponderada de análise.

Ponderação é uma palavra que não consta em seus livros, pois se por um lado Arbex acusa a todos de parcialidade e de terem uma visão unilateral, ele mesmo não analisa objetivamente fato algum e reproduz os mesmo vícios dos jornalistas que ele tanto critica. Suas opiniões figuram em primeira estância em suas obras, mostrando assim apenas o lado que o autor considera correto segundo os próprios critérios.

Arbex compara, critica, julga e condena líderes, nações, jornalistas e órgãos públicos que não estão de acordo com sua visão política e ideológica. Faz uso do mesmo maniqueísmo que combate em relação aos americanos, aplicando de certa forma o eixo do bem e do mal no jornalismo. Nesse caso, seria ele o eixo do bem.

A capacidade de argumentação e o conhecimento do autor são inquestionáveis, levando em consideração seu doutorado em história social pela Universidade de São Paulo(USP) e vasta carreira jornalística. No entanto, Arbex se deixa conduzir por suas apaixonadas convicções que beiram uma religiosidade xiita.

segunda-feira, setembro 26

Vovó e Leminski

No último dia 13 compareci ao Hospital Beneficência Portuguesa, para visitar minha avó materna. Como toda boa fumante, minha avó, que fuma obsessivamente desde os 11 anos de idade, quase bateu as botas por causa da fumaça que engole com sofreguidão. Após algumas pontes de safena (nem sei ao certo se foram duas ou três) e a retirada de uma parte do pulmão, naquele dia ela já descansava, aguardando o médico dar-lhe alta e já pensando no prazer que sentiria ao fumar seu próximo cigarro.

Além de visitas freqüentes, fiquei imbuído também de passar uma das noites no hospital, pois minha mãe teria que cobrir um evento social que acabaria muito tarde. Muni-me de um livro do Leminski, peguei um táxi e fui para o hospital.

Minha avó me recebeu de braços abertos, nem tanto, pois estava com pontos no peito. Falou sobre a comida sem sal, o homem do quarto ao lado que ronca como uma britadeira e a enfermeira que, segundo a velha, tem piolhos. Depois de assistirmos juntos a novela América, como se não bastasse minha avó difamar o hospital inteiro, agora sobrava para o pessoal da novela. Nem a filha morta de Glória Perez escapou. “Aposto que aquela guria encaçapava a cobra do Guilherme de Pádua”. Minha avó sempre teve um humor ferino.

Desliguei a tevê e preparei a velha pra dormir. Sentei no sofá e puxei da minha mochila o livro do Leminski. Minha avó, atormentada que é, não parava de se mexer. Até o momento em que ela olhou para a capa do livro e exclamou quase gritando:

- Puta que me pariu, você lê Leminski?

Pausa aqui para puxar uma golfada de ar.

- Vó? Eles te deram muitos remédios?

Após comoção pessoal, ela me explicou que antigamente tinha o costume de ler e havia comprado alguns livros do autor. “Conheci a obra dele através do livro Catatau, que comprei em 1976”. Perguntou-me do que se tratava o Gozo Fabuloso. Falei que é um livro que foi lançado este ano e ela quase o confiscou na hora. Prometi dar-lhe de presente se ela parasse de fumar. Antes de eu mandá-la dormir ela ainda bradou: “E não pense que eu lia pouca coisa não, moleque. Li muito Jorge Amado, Clarice Lispector, Nelson Rodrigues e detestava aqueles troços de Macunaíma do Mário de Andrade”. Depois de 22 anos sendo seu neto, essa velha ainda me surpreende.

domingo, setembro 11

Micro-conto #3

Ouvi a voz no meio da madrugada. “Vem meu filho, vem!”. Num desespero insone gritei: “Cadê?! Pra onde?!”. “Pule pela janela que logo nos encontraremos”, a voz respondeu. A voz deve achar que tenho cara de idiota. Não pulei e voltei a dormir. Antes de adormecer completamente ouvi alguns chamados ao fundo. Acordei com dor de cabeça.

quinta-feira, setembro 1

Micro-conto #2

Nádia namorava um amigo meu, mas mantinha um caso secreto comigo. Após intermináveis tentativas de término com esse amigo, Nádia decidiu matá-lo. Eu serviria como isca. Marcaria um encontro com ele e chegaria atrasado. Nádia só me disse que ele não chegaria, pois morreria no caminho. Então perguntei o que mudaria eu chegar atrasado ou na hora. Ela me mandou calar a boca e obedecer. Nádia não quis me dizer o que aconteceria. Obedeci. Meu amigo morreu no caminho, como eu já esperava. Foi atropelado no ponto de ônibus, junto com mais 7 pessoas, por um velho que desmaiou no volante do carro. Nádia jurou que não tinha sido isso o programado, que só podia ser uma coisa: Destino. Realmente. O velho morreu assim que chegou ao hospital.

sexta-feira, agosto 26

Micro-conto #1

As cortinas se abrem. Estou pelado no centro do palco. Sou um ator. Um ator de vanguarda. Na platéia apenas uma pessoa. Ele diz que se chama Jesus e é o diretor da peça. Tem uma barba nojenta e cabelos desgrenhados. Diz: ator burro, não é assim, volte lá pra trás e faça direito.

sexta-feira, agosto 19

Papo de Mulher

Machistamente falando, Ana Ferreira, em seu livro Amadora, escreve como um homem. Essa é a constatação que qualquer leitor provido de um mínimo de conhecimento em literatura erótica chegará. Não afirmo que ela escreve como homem simplesmente porque escreve bem, mesmo porque muitas mulheres escrevem bem - e nesse sentido ela seria apenas mais uma.

O fato é que dentro de um estilo literário dominado por homens, Ana Ferreira se destaca por colocar no papel o que muitos homens querem ouvir e muitas mulheres não têm coragem para fazer. Liberta de qualquer tipo de autocensura, ela narra detalhadamente as peripécias sexuais de Ângela, a protagonista altamente sexuada deste livro.

Amadora pode parecer um amontoado de contos desconexos, mas todos têm uma ligação. E Ângela é insaciável. Relaciona-se sexualmente com um coroa que a aborda durante o caminho da escola no dia de uma suposta prova de geografia, com o irmão de um namorado, com uma garota, participa de um ménage a tróis, transa com três na mesma noite para tentar esquecer um quarto homem, e até mesmo um caso de incesto é praticado.

Ana Ferreira escreveu um livro de leitura leve, rápida e envolvente que transborda sexo em sua narrativa. Só resta você, leitor, se deliciar com essas páginas e depois torcer para cruzar com uma Ângela em sua vida. E agradecer aos céus.

terça-feira, agosto 16

Não apenas um adeus

O dia nunca foi tão escuro como naquele em que ela me disse adeus. Eu não percebi, pela sua voz, que não era um adeus comum, como nos dizíamos com certa freqüência. Era um adeus carregado, tenso e triste. Extremamente cansado.

Na hora não notei esses detalhes. Na hora, era apenas um adeus. Só depois de receber a notícia que os detalhes se tornaram nítidos. Ela estava triste, como sempre esteve triste. Ela estava doente, como sempre esteve doente. Ela estava desiludida, como sempre esteve desiludida. Era, pareceu, apenas mais um adeus.

Engano meu. Horas depois me deram a notícia. Luana havia se jogado. Nove andares até o encontro com o chão. Nenhum bilhete encontrado, ninguém a culpar, nada para esclarecer. Não justificou, não culpou e nem pediu adeus. Mas, em minha memória, ainda hoje, permanece aquele triste, e último, adeus.

segunda-feira, agosto 15

Resenha do filme A Montanha dos Sete Abutres

Charles Tatum, interpretado por Kirk Douglas, é um jornalista que, após perder diversos empregos em jornais grandes, consegue se empregar no pequeno jornal de uma cidade interiorana chamada Albuquerque. Contudo, manter-se nesse jornal não é a meta de Tatum, que espera ansiosamente por um furo de reportagem que o recoloque na grande imprensa. Inescrupuloso e capaz de manipular, distorcer ou inventar fatos, Tatum está disposto a tudo para conseguir a grande matéria que o levará de volta para a sua antiga posição.

Um tanto contrariado e a pedido de seu editor, Tatum é enviado para cobrir uma caça às cascavéis em uma cidade vizinha. É justamente nessa viagem que ele se depara com a aguardada grande notícia. E como o próprio Tatum prega que “a morte de centenas ou milhares de pessoas não tem o mesmo interesse que a morte de uma única pessoa”, um homem, Leo Minosa, que está praticamente soterrado numa caverna, vira presa fácil para um jornalista ambicioso e meticuloso que está em busca de uma grande matéria.

O desfecho da história se torna um tanto óbvio para quem percebe que o jornalista descarta a necessidade da veracidade para a notícia. Tatum debocha do quadro escrito “diga a verdade”, posto na redação do jornal. Aproveitando a ambição pessoal da mulher de Minosa e do Xerife, Tatum consegue corromper a todos, incluindo também o fotógrafo, que acaba ignorando seus princípios perante a idéia de sucesso de Tatum.

O filme, apesar de ter sido produzido na década de 50, mostra um pouco das trapaças e falcatruas que naqueles tempos eram absurdos e chocantes (basta notar a reação do editor do jornal quando Tatum faz seus comentários) e que hoje nada mais são do que normais, naturais e até mesmo aceitáveis. A Montanha dos Sete Abutres é retrato do que era e ainda é o meio jornalístico (ainda com mais densidade que antigamente), o que o torna, por si só, atual.

É possível notar na imprensa (principalmente na grande imprensa) o quanto alguns profissionais (da informação) não estão preocupados com a notícia, mas, sim, com a autopromoção. Transformam notícias em mercadorias, apenas mais um produto para ser colocado no mercado e consumido. Portanto, manipulam-se fatos para tornar a matéria mais atraente para uma população que também está preocupada em apenas consumir e não em se informar, ignorando questões básicas e não questionando a veracidade (ou qualquer coisa que o valha). Tatum é o arquétipo desse tipo de jornalismo, capaz até mesmo de “morder um cachorro” na falta de notícias.

O filme, apesar de ser considerado um clássico do cinema americano, sofreu algumas dificuldades quando lançado, o que já devia ser esperado. Afinal, ele não poderia ser bem aceito pela imprensa marrom que se sentiu atacada, e nem pelo público que se viu caricaturado.

Billy Wilder produziu um filme que, se é clássico, é o muito mais para o jornalismo, merecendo, portanto, espaço e discussão em torno dele nos cursos de Comunicação para sabermos o que queremos fazer e o que está sendo feito com a informação nos dias de hoje.

quinta-feira, agosto 11

Um livro para ser lido com pipocas

Um livro não é apenas conteúdo. Concordo que o conteúdo é o mais importante, óbvio. Mas é ótima a sensação de pegar um livro que se destaca pela beleza exterior numa estante lotada de uma livraria, lê-lo e aprová-lo. Quantos livros você já não pegou e descartou antes mesmo de uma leitura atenta da sinopse graças à feiúra da capa? É por isso que um livro deve ter uma arte interessante e ser bem diagramado – para dar forma e convidar até o mais desatento para um bom conteúdo.

Foi pela sua beleza estética que O Caderno de Cinema de Marina W. chamou minha atenção. Difícil recusar pegá-lo quando nos deparamos com ele na estante. Um livro grande, robusto e bonito, no meio de muitos outros feios e pouco convidativos que purulam pelas livrarias.

Marina W. pega o leitor pela mão, senta o sujeito à mesa de uma cafeteria, pede um café e conversa gostoso sobre cinema. Fala com desenvoltura, com segurança e, o mais importante de tudo, sem subir nas tamancas da autopiedade intelectual acadêmica. Isto é, ela fala de cinema como se falasse sobre a coisa mais simples do mundo, desembaraçadamente, como deve ser. Tira esse espectro de que só quem estudou por anos a fio pode falar ou escrever sobre cinema enquanto nós, meros espectadores, ficamos sob os efeitos corrosivos das críticas cabeças de críticos sem cabeça. Ou ainda, para aproveitar a deixa, como escreveu Sergio Faria na orelha, "é um livro sobre cinema que não foi escrito em cinemês”.

Em seu Caderno de Cinema, Marina W. não faz sinopses e muito menos críticas. Ela escreve sobre os filmes que gostou e também dos que não gostou. É aí que fica visível a diferença entre ela e os críticos que pipocam besteiras e preconceitos estéticos pelas páginas de revistas e jornais. Marina é sensível. Impossível não notar tal qualidade enquanto nos deliciamos com as páginas de seu Caderno. Mesmo quando o filme não a agrada, ela nos dá os motivos e, geralmente, descreve alguma qualidade no mesmo. Na verdade ela nos mostra que qualquer filme (ou a maioria deles) tem suas qualidades, seja uma atuação, a fotografia ou o roteiro. Portanto, se ela não gostou de um filme, isso não quer dizer que você não possa gostar – parece, inclusive, que ela quer que você goste, pois ela nos mostra todas as possibilidades para que isso aconteça. É derrubada a pedante arrogância que grande parte dos críticos tem. Mas eu já não falei que a Marina não faz crítica?

Pois bem, voltemos ao que interessa.

Sabe aquele filme clássico? Tem no livro. Filme nacional? Idem. Pornochanchada? Algumas. Fatos inusitados, outros nem tanto e de bastidores também tem. O Top 100 de todos os tempos está lá. No final, de grande ajuda, ela ainda faz uma listinha para locadora. Praticamente um guia dos bons.

Às vezes tem-se a impressão de que não estamos lendo, mas vendo, assistindo. Isso é explicado pelo simples fato do livro ser falado, conversado – lembra quando disse que Marina senta com o sujeito numa cafeteria e conversa sobre cinema? Pois é isso. No final das contas você só tem uma opção. Pegar as pipocas e ver este filme... quero dizer, ler este livro.

terça-feira, agosto 9

A curva que une os amantes

Podia ver ao longe a curva na estrada. Seu carro mantinha há alguns minutos a velocidade fixa de 130 quilômetros por hora. Foi lá, naquela curva, há 3 anos, que o acidente aconteceu. Talvez por sentir-se culpado, jamais tenha tido coragem de repetir aquele caminho. Queria esquecer. Apagar aquele maldito dia de sua mente.

Lembrou-se de como ela estava feliz. Era a primeira viagem que fariam depois da lua de mel. Foi um sacrifício para ele conseguir ser liberado do escritório para passar um pouco mais que um fim de semana com sua mulher. Para ela era um pouco mais fácil. Nunca teve grandes entraves na firma onde trabalhava. Bastava avisar-lhes com antecedência que eles arrumavam uma forma de repor os dias ou descontar do salário.

Ela estava deslumbrante. Sorridente. Bem humorada. Linda. Ele sempre soube que ela adorava viajar. Que se tivesse mais dinheiro e tempo livre conheceria todos os cantos do mundo. Talvez por não dispor, por enquanto, destas viagens, ela foi cursar a faculdade de História. Não podendo conhecer o mundo pelos próprios olhos, conheceria o máximo possível através dos livros. Grécia, Egito, Roma, América Latina, África e todo o Oriente eram, para ela, um sonho a ser alcançado.

Mas ele só notava tal adoração quando a via assim, deslumbrante nos momentos em que antecediam uma viagem. Ela ligava e marcava o hotel, escolhia alguns pontos turísticos e arrumava as malas.

Ele gostava de vê-la assim. Impossível não gostar. E ele realmente concordava que sair um pouco de São Paulo, conhecer novos lugares e respirar novos ares não fazia mal de vez em quando. Mas, o que ele tentava não demonstrar, é que gostava mesmo era de estar em casa.

Saíram na hora marcada. Não pegaram congestionamento e logo estavam na estrada. Ele sempre gostou de correr. Brincava que se fosse escolher outra profissão seria a de piloto de Fórmula 1. Impossível para ele manter o ponteiro do velocímetro abaixo de 140 numa estrada daquelas.

Distraído que estava com os vidros abertos e o som muito alto, derrapou na curva e capotou o carro seguidas vezes. Foram socorridos, mas sua esposa morreu a caminho do hospital. Ainda hoje, três anos após o acidente, ele se remoia de culpa. Considerava-se o assassino da própria esposa.

Com o pensamento distante não percebeu a tempo a curva que chegou. A mesma curva de três anos atrás. Já era tarde quando girou o volante tentando escapar da mesma maldita curva que matara sua esposa. O carro capotou diversas vezes. Quando o socorro chegou já era tarde.

sexta-feira, agosto 5

Sede de sangue

Há poucos dias, enquanto ia a pé até a banca mais próxima para comprar o jornal, me deparo com uma movimentação não muito comum na esquina logo em frente. Não resisto. Me aproximo e tento ver o que aconteceu. Nessas horas percebo o espírito jornalístico que outras vezes acredito não existir em mim. No chão um corpo recém coberto. Se tivesse deixado para escovar os dentes na volta, poderia ter visto o corpo descoberto. Pergunto para uma moça loira o que aconteceu. “Um moço se tacou do prédio, coitado”. “É, coitado”. Atravesso a rua e chego à banca da esquina seguinte de onde tem toda aglomeração de pessoas, bombeiros e ambulância.

Peço o jornal e dou a grana. O jornaleiro me pergunta se vi o corpo no chão. Respondo que sim, é claro. Só gostaria de ter visto a queda. Ele me olha incrédulo. Pego o jornal e dou as costas para sair. Tenho a impressão de ter ouvido um eu heim... Eu heim?!

Qual é o problema? Esse é o voyeurismo favorito atualmente. Ver desgraça alheia, principalmente quando é algo violento e trágico. Paramos para ver atropelamentos, acidentes de carro e brigas de casais na calçada da Avenida Paulista.

Até nossos divertimentos são pautados por infelicidade e infortúnio. Ontem mesmo me esbaldei vendo pela terceira vez Kill Bill. Os litros de sangue que jorraram durante todo o filme me fizeram quase gozar – depois de ver que não havia respingado nada no tapete. Novela sem desgraça, tramas diabólicas e gente desajustada não é digna de ser chamada de novela. Adoramos ver irmã passando irmã para trás, irmãos brigando por dinheiro e traição entre casais. A reprodução do nosso dia-a-dia se torna mais interessante na tela. Julgamos os outros, mas jamais nós mesmos.

Veja bem. É algo mais forte que eu. Que você também, não tenha vergonha de assumir. Nós sempre gostamos de ver desgraça. Desde criança. Quando saía briga no pátio do colégio era um empurra-empurra danado para tentar ficar próximo da confusão, a fim de ver um dente voar, um nariz quebrar ou um olho inchar.

A verdade é que voltei para casa encafifado por não ter visto o corpo do rapaz esborrachado no chão. Vejo toda violência do mundo pela televisão, ouço no rádio e me divirto com ela nos filmes, mas, ao mesmo tempo em que parecem tão próximas, estão tão distantes. Queria que o sangue quente do jovem deprimido respingasse nas barras de meu jeans, faria eu me sentir mais vivo.

Folheei o jornal e pensei em torcê-lo para ver se escorreria sangue. Mas dei a ele o único fim que um jornal brasileiro merece. Forrar o chão para o cachorro defecar em cima. Pensei em assistir Kill Bill mais uma vez para matar minha sede por sangue, violência e morte.

Será minha natureza animal?

quarta-feira, agosto 3

Do ato de escrever

1.O ato da escrita é prazeroso. Mas nem por isso deixa de ser difícil fazê-lo. E, às vezes um tanto pior, assumir.

2.Mesa de bar. Namorada, familiares, amigos, conhecidos e amigos dos conhecidos. Conversa vai e conversa vem. A pergunta inevitável surge. Não dá tempo de você correr pro banheiro simulando ânsia de vômito ou uma caganeira repentina. Você ouviu e será obrigado a responder. “O que você faz da vida?”. “Hã?”. “Você trabalha em que?”. Pergunta difícil de responder.

3.Você começa a pensar que isso não tem nada a ver. Afinal, qual a importância do que você faz da vida? A pessoa à sua frente, provavelmente alguém com uma profissão “normal” tipo advogado, economista, engenheiro, arquiteto, bancário ou eletricista, não está muito interessado no que você faz ou deixa de fazer. Ele quer, simplesmente, “puxar papo”. E é aí que está o problema.

4.Se as pessoas fossem dotadas de vontade de conhecer o próximo, seria mais fácil tentar explicar o porquê de muitas coisas. Mas como na maioria das vezes elas só querem “puxar papo”, aí meu amigo, a coisa complica. Elas vão “puxar papo” até chegar na sua infância e tentarão descobrir por qual motivo você decidiu virar escritor. Normalmente elas concluem também que tal motivo foi originalmente motivado por causa de algum desvio mental, pedofilia paterna ou desnutrição.

5.“Eu escrevo”. Você responde em voz baixa. “O quê?”. “Eu escrevo”, agora um pouco mais alto. “Ah, que legal”. “É”. “Escreve o que?”. Caramba, não podia ser pior. Agora a mesa toda está prestando atenção na conversa. A sua vontade é de responder que você escreve bula de remédio ou atestado de óbito. Mas você tenta manter o nível. Ficaria feio eles pensarem que você além de vagabundo (afinal escrever não é profissão) é grosseiro.

6.Veja bem. Vamos recorrer às pessoas mais velhas, afinal elas são experientes. Bom, pelo menos é o que nos dizem. “Vó, escrever é profissão?”. “Só se você ganhar muito dinheiro”. Outro. “Vô, escrever é profissão?”. “Isso é coisa de viadinho sensível. Escritor fica com a mão calejada? Com o corpo forte? Claro que não é profissão, é passatempo”.

7.Mas na mesa de bar você responde que já publicou alguns textos, escreveu uns roteiros e está se dedicando ao teatro. “Dramaturgo”. O incauto pergunta: “O que é isso? Alguma doença?”. A mesa toda cai às gargalhadas. Mas aí é tarde. Quem fala o que quer ouve o que não quer. “Não. Doença é burrice”. Todos se entreolham um pouco sem graça até que um diz: “Tinha que ser escritor”.

8.Daí vem a fama. Sabe aquela fama? Que todo escritor é arrogante, prepotente, metido a sebo, anti-social e pseudo-intelectual?

9.Mas numa boa. Quem se importa?