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Do Fundo da Gaveta

Histórias fictícias sobre pessoas incomuns

Terça-feira, Agosto 9

A curva que une os amantes

Podia ver ao longe a curva na estrada. Seu carro mantinha há alguns minutos a velocidade fixa de 130 quilômetros por hora. Foi lá, naquela curva, há 3 anos, que o acidente aconteceu. Talvez por sentir-se culpado, jamais tenha tido coragem de repetir aquele caminho. Queria esquecer. Apagar aquele maldito dia de sua mente.

Lembrou-se de como ela estava feliz. Era a primeira viagem que fariam depois da lua de mel. Foi um sacrifício para ele conseguir ser liberado do escritório para passar um pouco mais que um fim de semana com sua mulher. Para ela era um pouco mais fácil. Nunca teve grandes entraves na firma onde trabalhava. Bastava avisar-lhes com antecedência que eles arrumavam uma forma de repor os dias ou descontar do salário.

Ela estava deslumbrante. Sorridente. Bem humorada. Linda. Ele sempre soube que ela adorava viajar. Que se tivesse mais dinheiro e tempo livre conheceria todos os cantos do mundo. Talvez por não dispor, por enquanto, destas viagens, ela foi cursar a faculdade de História. Não podendo conhecer o mundo pelos próprios olhos, conheceria o máximo possível através dos livros. Grécia, Egito, Roma, América Latina, África e todo o Oriente eram, para ela, um sonho a ser alcançado.

Mas ele só notava tal adoração quando a via assim, deslumbrante nos momentos em que antecediam uma viagem. Ela ligava e marcava o hotel, escolhia alguns pontos turísticos e arrumava as malas.

Ele gostava de vê-la assim. Impossível não gostar. E ele realmente concordava que sair um pouco de São Paulo, conhecer novos lugares e respirar novos ares não fazia mal de vez em quando. Mas, o que ele tentava não demonstrar, é que gostava mesmo era de estar em casa.

Saíram na hora marcada. Não pegaram congestionamento e logo estavam na estrada. Ele sempre gostou de correr. Brincava que se fosse escolher outra profissão seria a de piloto de Fórmula 1. Impossível para ele manter o ponteiro do velocímetro abaixo de 140 numa estrada daquelas.

Distraído que estava com os vidros abertos e o som muito alto, derrapou na curva e capotou o carro seguidas vezes. Foram socorridos, mas sua esposa morreu a caminho do hospital. Ainda hoje, três anos após o acidente, ele se remoia de culpa. Considerava-se o assassino da própria esposa.

Com o pensamento distante não percebeu a tempo a curva que chegou. A mesma curva de três anos atrás. Já era tarde quando girou o volante tentando escapar da mesma maldita curva que matara sua esposa. O carro capotou diversas vezes. Quando o socorro chegou já era tarde.

2 Comments:

At Agosto 09, 2005 9:39 PM, Blogger Luís H. Garcia said...

Legal, mas podia ser mais longo, não?

 
At Agosto 10, 2005 1:31 AM, Anonymous amadeus said...

Certamente um chamado do além!!!

 

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