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Do Fundo da Gaveta

Histórias fictícias sobre pessoas incomuns

Quarta-feira, Agosto 3

Do ato de escrever

1.O ato da escrita é prazeroso. Mas nem por isso deixa de ser difícil fazê-lo. E, às vezes um tanto pior, assumir.

2.Mesa de bar. Namorada, familiares, amigos, conhecidos e amigos dos conhecidos. Conversa vai e conversa vem. A pergunta inevitável surge. Não dá tempo de você correr pro banheiro simulando ânsia de vômito ou uma caganeira repentina. Você ouviu e será obrigado a responder. “O que você faz da vida?”. “Hã?”. “Você trabalha em que?”. Pergunta difícil de responder.

3.Você começa a pensar que isso não tem nada a ver. Afinal, qual a importância do que você faz da vida? A pessoa à sua frente, provavelmente alguém com uma profissão “normal” tipo advogado, economista, engenheiro, arquiteto, bancário ou eletricista, não está muito interessado no que você faz ou deixa de fazer. Ele quer, simplesmente, “puxar papo”. E é aí que está o problema.

4.Se as pessoas fossem dotadas de vontade de conhecer o próximo, seria mais fácil tentar explicar o porquê de muitas coisas. Mas como na maioria das vezes elas só querem “puxar papo”, aí meu amigo, a coisa complica. Elas vão “puxar papo” até chegar na sua infância e tentarão descobrir por qual motivo você decidiu virar escritor. Normalmente elas concluem também que tal motivo foi originalmente motivado por causa de algum desvio mental, pedofilia paterna ou desnutrição.

5.“Eu escrevo”. Você responde em voz baixa. “O quê?”. “Eu escrevo”, agora um pouco mais alto. “Ah, que legal”. “É”. “Escreve o que?”. Caramba, não podia ser pior. Agora a mesa toda está prestando atenção na conversa. A sua vontade é de responder que você escreve bula de remédio ou atestado de óbito. Mas você tenta manter o nível. Ficaria feio eles pensarem que você além de vagabundo (afinal escrever não é profissão) é grosseiro.

6.Veja bem. Vamos recorrer às pessoas mais velhas, afinal elas são experientes. Bom, pelo menos é o que nos dizem. “Vó, escrever é profissão?”. “Só se você ganhar muito dinheiro”. Outro. “Vô, escrever é profissão?”. “Isso é coisa de viadinho sensível. Escritor fica com a mão calejada? Com o corpo forte? Claro que não é profissão, é passatempo”.

7.Mas na mesa de bar você responde que já publicou alguns textos, escreveu uns roteiros e está se dedicando ao teatro. “Dramaturgo”. O incauto pergunta: “O que é isso? Alguma doença?”. A mesa toda cai às gargalhadas. Mas aí é tarde. Quem fala o que quer ouve o que não quer. “Não. Doença é burrice”. Todos se entreolham um pouco sem graça até que um diz: “Tinha que ser escritor”.

8.Daí vem a fama. Sabe aquela fama? Que todo escritor é arrogante, prepotente, metido a sebo, anti-social e pseudo-intelectual?

9.Mas numa boa. Quem se importa?

2 Comments:

At Agosto 04, 2005 8:00 PM, Blogger Luís H. Garcia said...

Sim, é passatempo, não vê o Paulo Coelho? Adoro aquele cara. Simplesmente adoro.

 
At Agosto 06, 2005 9:00 PM, Anonymous amadeus said...

O melhor então, na minha opinião, é de modo geral se calar. Para que ficar se "explicando"? Escritor não pode ser muito sociável mesmo. E sendo, por que não falar de outra coisa em público que não seja Literatura? Já pensou nisso? Por isso tenho certo admiração pelos bons escritores esquivos como dalton trevisan e Rubem Fonseca.

 

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