.comment-link {margin-left:.6em;}

Do Fundo da Gaveta

Histórias fictícias sobre pessoas incomuns

Segunda-feira, Agosto 15

Resenha do filme A Montanha dos Sete Abutres

Charles Tatum, interpretado por Kirk Douglas, é um jornalista que, após perder diversos empregos em jornais grandes, consegue se empregar no pequeno jornal de uma cidade interiorana chamada Albuquerque. Contudo, manter-se nesse jornal não é a meta de Tatum, que espera ansiosamente por um furo de reportagem que o recoloque na grande imprensa. Inescrupuloso e capaz de manipular, distorcer ou inventar fatos, Tatum está disposto a tudo para conseguir a grande matéria que o levará de volta para a sua antiga posição.

Um tanto contrariado e a pedido de seu editor, Tatum é enviado para cobrir uma caça às cascavéis em uma cidade vizinha. É justamente nessa viagem que ele se depara com a aguardada grande notícia. E como o próprio Tatum prega que “a morte de centenas ou milhares de pessoas não tem o mesmo interesse que a morte de uma única pessoa”, um homem, Leo Minosa, que está praticamente soterrado numa caverna, vira presa fácil para um jornalista ambicioso e meticuloso que está em busca de uma grande matéria.

O desfecho da história se torna um tanto óbvio para quem percebe que o jornalista descarta a necessidade da veracidade para a notícia. Tatum debocha do quadro escrito “diga a verdade”, posto na redação do jornal. Aproveitando a ambição pessoal da mulher de Minosa e do Xerife, Tatum consegue corromper a todos, incluindo também o fotógrafo, que acaba ignorando seus princípios perante a idéia de sucesso de Tatum.

O filme, apesar de ter sido produzido na década de 50, mostra um pouco das trapaças e falcatruas que naqueles tempos eram absurdos e chocantes (basta notar a reação do editor do jornal quando Tatum faz seus comentários) e que hoje nada mais são do que normais, naturais e até mesmo aceitáveis. A Montanha dos Sete Abutres é retrato do que era e ainda é o meio jornalístico (ainda com mais densidade que antigamente), o que o torna, por si só, atual.

É possível notar na imprensa (principalmente na grande imprensa) o quanto alguns profissionais (da informação) não estão preocupados com a notícia, mas, sim, com a autopromoção. Transformam notícias em mercadorias, apenas mais um produto para ser colocado no mercado e consumido. Portanto, manipulam-se fatos para tornar a matéria mais atraente para uma população que também está preocupada em apenas consumir e não em se informar, ignorando questões básicas e não questionando a veracidade (ou qualquer coisa que o valha). Tatum é o arquétipo desse tipo de jornalismo, capaz até mesmo de “morder um cachorro” na falta de notícias.

O filme, apesar de ser considerado um clássico do cinema americano, sofreu algumas dificuldades quando lançado, o que já devia ser esperado. Afinal, ele não poderia ser bem aceito pela imprensa marrom que se sentiu atacada, e nem pelo público que se viu caricaturado.

Billy Wilder produziu um filme que, se é clássico, é o muito mais para o jornalismo, merecendo, portanto, espaço e discussão em torno dele nos cursos de Comunicação para sabermos o que queremos fazer e o que está sendo feito com a informação nos dias de hoje.

1 Comments:

At Agosto 16, 2005 3:12 PM, Blogger Rafael Galvão said...

A discussão sobre jornalismo acaba ofuscando um pouco do filme. É um clássico absoluto, feito por um diretor que praticamente não fez filmes ruins. Cá do meu canto acho que é muito mais uma observação sobre o cinismo e a miséria humanas do que especificamente sobre jornalismo.

Tem gente muito boa que considera esse o melhor filme de Wilder; eu não chego a tanto, mas é um filme absolutamente maravilhoso.

 

Postar um comentário

Links to this post:

Criar um link

<< Home