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Do Fundo da Gaveta

Histórias fictícias sobre pessoas incomuns

Sexta-feira, Agosto 5

Sede de sangue

Há poucos dias, enquanto ia a pé até a banca mais próxima para comprar o jornal, me deparo com uma movimentação não muito comum na esquina logo em frente. Não resisto. Me aproximo e tento ver o que aconteceu. Nessas horas percebo o espírito jornalístico que outras vezes acredito não existir em mim. No chão um corpo recém coberto. Se tivesse deixado para escovar os dentes na volta, poderia ter visto o corpo descoberto. Pergunto para uma moça loira o que aconteceu. “Um moço se tacou do prédio, coitado”. “É, coitado”. Atravesso a rua e chego à banca da esquina seguinte de onde tem toda aglomeração de pessoas, bombeiros e ambulância.

Peço o jornal e dou a grana. O jornaleiro me pergunta se vi o corpo no chão. Respondo que sim, é claro. Só gostaria de ter visto a queda. Ele me olha incrédulo. Pego o jornal e dou as costas para sair. Tenho a impressão de ter ouvido um eu heim... Eu heim?!

Qual é o problema? Esse é o voyeurismo favorito atualmente. Ver desgraça alheia, principalmente quando é algo violento e trágico. Paramos para ver atropelamentos, acidentes de carro e brigas de casais na calçada da Avenida Paulista.

Até nossos divertimentos são pautados por infelicidade e infortúnio. Ontem mesmo me esbaldei vendo pela terceira vez Kill Bill. Os litros de sangue que jorraram durante todo o filme me fizeram quase gozar – depois de ver que não havia respingado nada no tapete. Novela sem desgraça, tramas diabólicas e gente desajustada não é digna de ser chamada de novela. Adoramos ver irmã passando irmã para trás, irmãos brigando por dinheiro e traição entre casais. A reprodução do nosso dia-a-dia se torna mais interessante na tela. Julgamos os outros, mas jamais nós mesmos.

Veja bem. É algo mais forte que eu. Que você também, não tenha vergonha de assumir. Nós sempre gostamos de ver desgraça. Desde criança. Quando saía briga no pátio do colégio era um empurra-empurra danado para tentar ficar próximo da confusão, a fim de ver um dente voar, um nariz quebrar ou um olho inchar.

A verdade é que voltei para casa encafifado por não ter visto o corpo do rapaz esborrachado no chão. Vejo toda violência do mundo pela televisão, ouço no rádio e me divirto com ela nos filmes, mas, ao mesmo tempo em que parecem tão próximas, estão tão distantes. Queria que o sangue quente do jovem deprimido respingasse nas barras de meu jeans, faria eu me sentir mais vivo.

Folheei o jornal e pensei em torcê-lo para ver se escorreria sangue. Mas dei a ele o único fim que um jornal brasileiro merece. Forrar o chão para o cachorro defecar em cima. Pensei em assistir Kill Bill mais uma vez para matar minha sede por sangue, violência e morte.

Será minha natureza animal?

4 Comments:

At Agosto 06, 2005 8:53 PM, Anonymous amadeus said...

Cara, que pequeno texto contundente! Esse é um daqueles pensamentos proibidos que a maioria dos seres-humanos têm. Nossa sede inconfessada! Eu mesmo já vi uma violenta batida de automóvel ao vivo, tipo aquela mostrada em Amores brutos, já viu? Só que milagrosamente sem mortes! Também já vi alguém ser baleado. Essas coisas! Acho que é sim o espírito de nossos milenares ancestrais se manifestando. Cruz credo! Fazer o quê?

 
At Agosto 15, 2005 2:00 PM, Anonymous yara said...

não queremos nada além do distante, seguro, superficial, ainda que violento... nos falta conhecimento empírico às vezes.

 
At Agosto 15, 2005 2:04 PM, Anonymous yara said...

Ainda que violento, não queremos nada além do distante, seguro, superficial... a natureza pede empirismo às vezes.

 
At Agosto 15, 2005 2:06 PM, Anonymous yara said...

ops!!! yara ao quadradro, rs, desculpe...

 

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